A arte é Livre

Por Monique Lôbo


O Prêmio Braskem de Teatro completou um quarto de século revisitando os milênios da história do teatro para refletir sobre a natureza liberta da criação artística. Com o tema A Arte é Livre, a cerimônia de premiação, que aconteceu no dia 13 de junho, no Teatro Castro Alves, teve direção de Luiz Marfuz e lançou luz sobre a onda conservadora que tem ameaçado as produções artísticas no país.

A intolerância e a censura foram discutidas através de performances realizadas pelos atores Harildo Déda, Valdineia Soriano, Cyria Coentro, Hilton Cobra, Leandro Villa e Laila Garin. “Nesse espetáculo temos a metáfora da tempestade, que é essa fúria do conservadorismo que quer nos fazer retornar a Idade Média. Então, essa encenação é como um grito. Uma forma de mostrar que vamos superá-la. E virão outras, mas vamos superar todas elas também”, afirmou Marfuz, que dirigiu o evento pela sexta vez.

Realizado pela Caderno 2 Produções e patrocinado pela Braskem e pelo Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, o projeto reuniu dez peças concorrentes nas categorias Espetáculo Adulto e Espetáculo Infantojuvenil e 26 profissionais que disputaram as estatuetas de melhor Texto, Direção, Ator, Atriz, Revelação e Categoria Especial do total de 61 montagens avaliadas.

“Essa é uma premiação muito importante. É uma data muito significativa: é o coroamento desses 25 anos.  Existem poucos prêmios tão longínquos como esse”, lembrou Milton Pradines, gerente de Relações Institucionais da Braskem na Bahia e Alagoas. “E ele é muito importante para a Braskem, que tem uma linha de incentivo à cultura, pois esse é o maior evento que apoiamos. Então, ele tangibiliza na série de valores que a gente acredita, está em sintonia com o nosso propósito que é melhorar a vida das pessoas”, completou.

Premiação- Letícia Bianchi foi a primeira premiada da noite na categoria Revelação pela direção do espetáculo Eudemonia. Quando subiu ao palco, a diretora fez questão de exaltar a importância das mulheres no teatro. “A gente ouve falar sempre de grandes homens do teatro. Com todo respeito aos mestres, mas espaços como esse do Prêmio Braskem servem para reafirmar que também existem grandes mulheres do teatro”, disse Letícia.

Em seguida, foi a vez do cantor, compositor e ator Gerônimo levar a estatueta da Categoria Especial pela composição musical da montagem De Um Tudo. O músico, que também atuou na peça, fez questão de dedicar o prêmio ao diretor Fernando Guerreiro. “Eu não seria uma pessoa como sou agora se não fosse o teatro com a direção de Guerreiro. Para mim, ele é um sátiro baiano que forçou a minha mente”, contou.

Assim como a arte é um retrato da sociedade, o Prêmio Braskem de Teatro representou não só o cerceamento artístico, a intolerância religiosa, homofobia e o movimento em defesa da regulamentação da profissão de artista, como também o triste episódio que aconteceu com o ator Leno Sacramento, do Bando de Teatro Olodum, que foi baleado na perna em uma abordagem policial no mesmo dia em que ocorreu a cerimônia.

Em um discurso forte, Hilton Cobra falou sobre racismo. “Nós não podemos deixar de manifestar o nosso repúdio contra essa violência que mata preto. Que chega e mata, não fala nada. Que se faça justiça”, pediu o ator.

Luiz Marfuz celebrou duplamente a noite ao ter somado a direção da cerimônia com a conquista do prêmio de melhor Texto por Traga-me a Cabeça de Lima Barreto. O diretor agradeceu a Hilton Cobra por tê-lo feito escrever essa peça, a amiga e diretora Fernanda Júlia e ao escritor Lima Barreto, personagem de sua obra. “Estou muito honrado, adoro fazer essa cerimônia porque é de artista para artista, é uma reafirmação do lugar do artista na sociedade”, avaliou.

Celebração - O primeiro homenageado da festa foi o ator, coreógrafo, maquiador e cabeleireiro Deo Carvalho, que há mais de 30 anos se dedica às artes cênicas. De joelhos, Deo agradeceu o prêmio e lembrou com a arte foi importante na sua vida. “A arte me curou. Fiquei cinco anos sem poder andar, em cima de uma cama, quando criança. Na hora em que minha mãe estava triste pela minha doença, ela sambava e cantava e eu me sentia bem ao ver aquela mulher sambando. Por isso, prometi que se levantasse, iria fazer o mesmo. Comecei com a dança, até que o teatro me escolheu e eu sou só gratidão”, recordou.

Virgulino Menino, Futuro Lampião foi o Espetáculo Infantojuvenil vencedor. O diretor Lucas Sicupira exaltou influência do teatro nas escolas infantis, tanto para a formação de novos profissionais, como para a manutenção do público. “Acreditamos muito no teatro infantil feito por crianças e para crianças. A gente prega pela valorização do teatro na escola, passamos por várias delas. Eles são a divisão de base do teatro baiano. Eles vão ser os futuros artistas que estão aqui e também serão as futuras plateias que vão consumir os espetáculos”, ponderou.

As atrizes Ivana Chastinet, falecida em agosto de 2017, aos 54 anos, e Frieda Gutmann, que morreu em janeiro de 2018, aos 67 anos, receberam uma homenagem póstuma pela relevância de suas carreias na cena baiana. Cyria Coentro e Valdineia Soriano comandaram o público em uma chamada que entoou pela sala principal do TCA: “Frieda, presente! Ivana, presente! Marielas, presente! Artistas, presente!”.  

A categoria de melhor Ator premiou Marcelo Praddo por suas performances em Os Pássaros de Copacabana e Um Vânia, de Tchekhov. “Que bom receber esse prêmio nessa noite tão especial. Nós estamos aqui para entreter, divertir, emocionar e trazer reflexão em tempos tão difíceis como estes”, falou Prado.

Já a estatueta de melhor Atriz foi para as mãos de Mariana Moreno por Uma Mulher Impossível. A atriz falou sobre seu ofício e aproveitou para agradecer aos organizadores da premiação. “Nossa vida é uma dureza, mas é um privilégio trabalhar com o que se ama. Por isso, quero agradecer a Caderno 2 e a Braskem pela realização do prêmio. Continuem nadando contra a corrente e sigam apoiando o teatro”, pediu Mariana.

Pouco antes de Gil Vicente Tavares, que não pode estar presente, ser anunciado como o vencedor da categoria de melhor Direção por Os Pássaros de Copacabana e Um Vânia, de Tchekhov – sendo representado por Marcelo Prado que leu seu discurso de agradecimento pelo privilégio de ter participado das duas produções –, Laila Garin arrancou aplausos de pé de toda a plateia ao cantar Como os Nossos Pais, composição de Belchior, em uma performance pungente.

Outro momento emocionante do evento foi a homenagem ao ator Antônio Pitanga que teve reverenciado seus quase 60 anos de carreira dedicados à cultura. Em um discurso emotivo, o artista lembrou de grandes nomes das artes cênicas baianas e da alegria de voltar a sua terra natal. “Eu vou fazer 80 anos ano que vem e volto à Bahia em pleno fôlego da minha carreira para receber esse prêmio em vida. Pense aí em como eu me sinto. Daqui pra frente, tudo que vier pra mim já vai estar bom. Hoje eu sou tantos, sou Glauber Rocha, sou Martim Gonçalves e tantos outros”, disse. Ele ainda falou sobre a influência africana na cultura baiana. “A gente navega em uma cultura onde a comida, a música, a poesia é negra. Essa Bahia que é 90% negra. Será que os brancos não percebem isso?”, questionou.

Coube a diretora institucional de Marketing da Braskem, Claudia Bocciardi, anunciar Um Vânia, de Tchekhov como o premiado na categoria Espetáculo Adulto. A montagem foi realizada pela Escola de Teatro da UFBA em parceria com o Teatro NU. Todo o elenco subiu ao palco para receber a estatueta e diretor da Escola de Teatro da Ufba, Luiz Cláudio Soares, e o ator Marcelo Prado falaram em agradecimento. Luiz Cláudio exaltou a importância da Escola de Teatro da Ufba e seu papel de resistência mesmo em meio as dificuldades.

Já Marcelo representou o diretor Gil Vicente Tavares mais uma vez e fez um agradecimento especial ao grupo Teatro NU. Para Claudia Bocciardi, a cerimônia conseguiu alcançar o objetivo de valorizar, em mais uma edição, a produção artística baiana. “O prêmio para nós é uma forma da Braskem celebrar a cultura brasileira e esses artistas que se dedicam dia-a-dia. Estamos mostrando como tudo isso é importante para a nossa cultura, como o teatro dá voz à diversidade e é uma forma de educar a nossa sociedade”, concluiu.