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Fim do governo Dilma marca superação do ‘capitalismo tupiniquim’, diz analista político Murillo de Aragão

set 1, 2016

Para ele, o novo momento exige maior participação do cidadão e outra relação entre setores público e privado

Donaldson Gomes
donaldson.gomes@redebahia.com.br

“Acordar de um pesadelo” é como o cientista político Murillo de Aragão, presidente da Arko Advice Pesquisas, define o momento que o Brasil vive a partir de hoje, após a definição do afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência da República. E mesmo que o cenário no despertar ainda seja parecido ao vivido no pesadelo, a situação tende a ficar diferente de agora em diante, acredita o analista.

“Sem a contribuição decisiva de Dilma, não teríamos impeachment”, afirma. Murillo de Aragão explicou que o processo de afastamento da ex-presidente em meio a “uma das mais intensas crises da história do país” deixou marcas profundas, que tendem a repercutir por algum tempo. O presidente Michel Temer assume definitivamente em condições bem diferentes das que existiam na era pré-Dilma.  “Uma das repercussões mais importante deste período foi a destruição daquilo que nós chamamos de ‘capitalismo tupiniquim’, marcado por um estado centralizador, que escolhe os seus fornecedores e os seus campeões na iniciativa privada para tocar projetos prioritários”, afirmou, durante a palestra Parcerias para Vencer a Crise: O Elo Entre a Política e a Economia, ontem, no Fórum Agenda Bahia.

murillo

A economia já está dando sinais de melhora.  Temos que nos preocupar com o futuro mesmo, com o país que deixaremos para nossos filhos e netos  Murillo de Aragão

Presidente da Arko Advice Pesquisas

Aragão acredita que, a partir de agora, o governo deve começar a corrigir “erros na condução da política econômica”, que resultaram no desequilíbrio fiscal do país. “Uma coisa precisa ser dita, por uma questão de justiça. Dilma recebeu o governo equilibrado das mãos de Lula (ex-presidente). Isso foi inclusive o que fez o governo dele ser tão bem sucedido. As mágicas fiscais foram uma invenção de Dilma e já desde o primeiro mandato ”, lembra.

Participação privada
Para corrigir o rumo da economia, o governo Temer precisará adotar o que Murillo de Aragão chama de “medidas dramáticas”, mas para isso o novo governo tem a seu favor a credibilidade que o antigo perdeu. “O Brasil precisa,  com urgência, de mais participação privada na economia, mas para isso há grande necessidade de trabalhar com maiores padrões de transparência”, aponta. Nos novos tempos, pós-Operação Lava Jato, há espaço para a participação da iniciativa privada na economia, porém, o modelo de participação precisa se diferenciar  do que ficou notabilizado no governo Dilma.

“As empresas precisam perceber que não existe mais espaços para a criação de atalhos na relação com o governo. O Brasil que emerge da crise exige mais participação do cidadão. E essa participação precisa ir além de falar mal do governo”, acredita.  A iniciativa privada deverá pressionar o governo para cobrar um melhor ambiente de negócios, com um planejamento de melhor qualidade. “Não é possível, para citar um exemplo, que se construa uma hidrelétrica de ponta, mas não haja linhas de transmissão para distribuir a energia”, diz.

Outra mudança necessária está em um maior diálogo entre os atores da sociedade. “Vamos ter que conversar mais com nossos vizinhos. Do que eu estou falando? Do patrão com o empregado, por exemplo. Estão rigorosamente no mesmo barco: dependem da empresa para viver”, diz. “Se é assim, por que às vezes remam em direções opostas?”, questiona.

Mudança a longo prazo
Se no curto prazo os sinais indicam uma melhoria no cenário, o que ainda está indefinido é o cenário econômico a longo prazo, destaca Murillo Aragão. “A economia já está dando sinais de melhora. Isto está dado no cenário mais imediato. Temos que nos preocupar com o futuro mesmo, com o país que deixaremos para nossos filhos e netos”, avisa.

Neste sentido, o analista político considera um aspecto fundamental o tratamento que será dado às empresas envolvidas na Operação Lava Jato. “É preciso uma pressão da sociedade em relação aos acordos de leniência. Não é possível que governo deixe empresas importantes impedidas de prestar serviços”.

Segundo ele, isso não significa esquecer qualquer malfeito. “Cobrem-se pesadas multas. Nos Estados Unidos é assim, na Alemanha é assim. A Siemens e a Alstom erraram, pagaram o preço por isso lá fora, mas não deixaram de existir porque isso penalizaria toda a sociedade”, justifica.

Para Zica Assis, do lado do empresariado, uma das atitudes que os empreendedores devem tomar para enfrentar e vencer a crise é assumir um papel de liderança. “Mas, para ser líder, a gente não pode somente exigir. Tem que se doar também, tem que melhorar o instituto”, defende ela, reconhecida como uma das mais inovadoras do país.  Para 2017, Zica diz que as expectativas são otimistas. “Se a gente não pensar que vai melhorar, quem vai pensar pela gente? Quem vai acreditar na nossa empresa e proteger nossa equipe?”, argumenta.

Zica, ex-doméstica que fundou o Instituto Beleza Natural, foi a segunda palestrante do seminário do Fórum agenda Bahia de ontem. Além da palestra, que provocou fila na entrada do auditório, ela também participou de um painel com Murillo de Aragão que discutiu o cenário para o ano que vem.

O Fórum Agenda Bahia é uma realização do CORREIO e rádio CBN, em parceria com a Fieb, a Braskem, a Coelba e o governo do estado.


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