Wilson Gomes:
o filósofo
que discute comunicação
e política nas redes sociais

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Professor da Ufba foi à CPMI das fake news, no Congresso Nacional; tema é linha de pesquisa

Vez ou outra, o professor Wilson Gomes precisa lembrar a quem o acompanha: ele não gosta de política. Se gostasse, faria política. Andaria em círculos partidários. Assumiria paixões por um ou outro lado. Mas pesquisar política, comunicação e democracia é diferente.

“Eu estudo política para entender como funciona e ajudar as pessoas a entender. Não sou militante. Nunca fui”, diz ele, que, hoje, aos 56 anos, é um dos principais nomes da ciência brasileira a discutir o tema em ambientes digitais.

Mais do que isso: faz parte de um grupo de intelectuais do país que conseguiu sair de ambientes acadêmicos. Milhares de pessoas acompanham suas ideias sobre o tema, quase que diariamente, em redes sociais.

Com 11 livros publicados, o professor Wilson Gomes já estava acostumado a ser referência em sua área. O mais vendido, Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa, pode ser considerado um sucesso editorial em um nicho. Lançado em 2004, teve mais de 3,5 mil exemplares impressos. É figurinha conhecida na bibliografia de cursos de Comunicação e Política. Não é difícil encontrar estudantes, mesmo na graduação, que tenham lido a obra completa.

Livro Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa é um sucesso de nicho
(Foto: Divulgação)

Por muito tempo, era esse o seu público. Nos últimos anos, porém, teve que se adaptar à nova audiência: aqueles que, dentre as diferentes profissões e áreas do conhecimento, começaram a se interessar pelos seus comentários sobre política e democracia.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Entre pílulas diárias e textões, chamou atenção pela linguagem acessível e por uma ou outra dose de humor que acrescenta aos pensamentos. “Precisamos da lucidez, sensibilidade e inteligência de gente como ele”, avaliou uma das seguidoras de sua página no Facebook, em fevereiro deste ano, com direito a emojis de coração. Outra, em agosto do ano passado, disse que o mundo precisava de olhar crítico. “Além de humor inteligente com uma boa dose de cinismo”, completou.

Só em seu perfil pessoal no Facebook são quase cinco mil amigos, além de mais de 38 mil seguidores. Na página que leva seu nome e onde publica os mesmos textos, tem outras 23 mil curtidas. O perfil no Twitter, onde participa desde 2009, tem mais de 34 mil seguidores. Os números de engajamento fariam inveja a influenciadores digitais que ganham a vida com isso: impacto de 1,4 milhões de contas no Twitter em 28 dias e um alcance três vezes maior no Facebook.

Em sua página no Facebook, Gomes tem mais de 23 mil curtidas
(Foto: Reprodução/Facebook)

“Cresci, mas é um crescimento controlado”, diz ele, que reforça que não faz questão de aumentar os números. Tem a impressão de que as pessoas não querem ler apenas comentários políticos, mas comentários políticos partidários. Se resolvesse ser um comentarista petista, por exemplo, escolhendo um lado, acredita que seu público seria maior.

“Mas isso é ruim para o meu trabalho intelectual. Naturalmente, deve ter um impacto falar para três, quatro milhões de pessoas. Do ponto de vista acadêmico, considero isso um trabalho de extensão”, afirma, referindo-se à atividade que, ao lado da pesquisa e do ensino, costuma ser um dos pilares das grandes universidades do país.

No caso dele, a pesquisa e o ensino são vinculados à Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde chegou em 1989, ainda com vínculo de bolsa de recém-doutor. Professor titular desde 2000, ele é um dos pesquisadores da instituição que têm produtividade 1A pelo CNPq.

Nos últimos três meses, porém, o professor Wilson viu sua rotina ser alterada pela pandemia. Teve que sair do laboratório e da convivência diária com os pesquisadores residentes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) que coordena. As reuniões semanais ainda acontecem, pelo menos, uma vez por semana, mas, para ele, não é a mesma coisa. O trabalho, por outro lado, aumentou.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Sem as demandas de viagem, participei de mais conferências, aulas e mesas-redondas (lives) do que em períodos normais. E trabalhamos ainda mais em artigos e ofertas de cursos de extensão e pesquisas”, exemplifica.

Ano diferente

Os acontecimentos no cenário político brasileiro davam sinais que 2018 seria um ano complexo. No mínimo, diferente. Foi por isso que o professor Wilson decidiu fazer algo que não costuma fazer: ter deadlines. Hesitou no início. Não gosta de prazos. Se tiver uma data limite, deixa o texto para o último momento. Sem limites, é capaz de fazer dois ou três por dia.

No fim, acabou aceitando se tornar colunista de veículos de comunicação. Era mais um passo para contribuir com a desinformação. Desde então, é colaborador da Revista Cult e da Rádio Metrópole, em Salvador. Para os dois, prepara comentários semanais. O acerto é o mesmo – no dia que lhe derem uma pauta ou retirarem uma linha do que tiver escrito ou dito, deixará o posto.

Nos últimos meses, antes da pandemia, as viagens aumentaram. Passou a ser convidado, com frequência, para falar inclusive em Tribunais Regionais Eleitorais. O sentimento de dever, enquanto pesquisador, talvez tenha sido a principal razão para que aceitasse falar na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das fake news, no Congresso Nacional, em outubro.

Wilson Gomes participou da CPMI das fake news, no Congresso Nacional
(Foto: Divulgação)

O professor Wilson Gomes foi o primeiro a falar – fora as reuniões internas. Em casa, houve resistência. Os mais próximos não queriam que ele fosse. Tinham medo do que podia acontecer. Podia ser linchado, ser alvo de ataques mais graves.

“De fato, havia muita tensão no ar. Mas achei que eu, como coordenador de um instituto que trabalha com esse tema – porque fake news hoje é uma linha de pesquisa da gente – não podia não ir. Não podia me privar de ir apenas pela minha segurança. Eu tinha de ir, mas tinha de ir como pesquisador”, explica.

A estratégia foi apresentar todos os dados. Informação com dados. E deu certo. O vídeo de sua fala, com cerca de 10 minutos, pode ser facilmente encontrado em algumas plataformas.

Foi a primeira e única participação da CPMI, que continua com uma lista imensa de participantes, passando por celebridades e influenciadores digitais. O humor ácido pelo qual é conhecido por alunos e colegas, porém, aparece quando cita o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), que deu seu depoimento à comissão dias depois do professor.

“Acho que ele fez mais sucesso do que eu. Imprimiu os tuítes. Eu não tive a ideia de imprimir os tuítes do Olavão (o astrólogo Olavo de Carvalho). Já me quebrou. Já não sou o cara mais influente da CPMI das fake news. Agora é Alexandre Frota”, diz, aos risos.

As fake news também são tema de uma pesquisa mais recente – agora, também estuda o uso daquelas sobre a pandemia do coronavírus em plataformas digitais. “Os nossos temas estão efervescentes, já que trabalhamos com os efeitos sociais dos usos de tecnologia e a demanda por questões relacionadas a fake news e as ferramentas para transparência e para governo eletrônica cresceram”, diz.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Europa

A pesquisa em comunicação e política veio aos poucos. Por muito tempo, não foram seus principais objetos de estudo. Aos 17 anos, ainda adolescente, fez vestibular para Filosofia na Ufba. Na faculdade, um professor sugeriu que fosse estudar fora. Disse que podiam conseguir uma bolsa para que depois ele voltasse ao Brasil.

“Os cavalos foram passando e eu montei. Não tinha dinheiro, então, tinha que aproveitar a oportunidade. Não imaginava, de jeito nenhum, morar na Europa”, lembra.

Wilson saíra de Camacã, no Sul do estado, onde cursou o Ensino Médio. Antes, até os 15 anos, morou em uma fazenda no interior de Mascote, uma cidade vizinha. O nome da propriedade era sugestivo: Fazenda Brasil.

Na casa onde cresceu, os pais não tiveram educação formal. Por muito tempo, o único livro que tinha no imóvel era uma Bíblia Sagrada. Alguns anos depois, o pai comprou uma enciclopédia. Mesmo assim, desenvolveram o hábito da leitura. A mãe, leitora voraz, consumia de literatura de cordel a fotonovelas.

Uma vez por semana, iam à banca de revistas de Camacã, e os pais permitiam que comprasse o que quisesse. Escolhia, quase sempre, quadrinhos de Tex Willer, enquanto o irmão comprava revistas esportivas e a mãe, a fotonovela. “A livraria da gente era a banca de revista. ‘Seu Sergipe’ foi muito importante na minha vida”, brinca.

Da Fazenda Brasil, foi para a Itália. Não falava nada de italiano. No colégio estadual onde estudou, tinha aprendido francês e um pouco de inglês. Aprendeu a língua nova ‘na marra’. Lá, fez duas graduações simultâneas: Filosofia, na Pontificia Università San Tommaso D’aquino, e Teologia, na Pontificia Universitá Gregoriana.

Na época, cogitava ser padre. Mas, na graduação, estudou outras coisas, como Antropologia. Decidiu continuar estudando. Emendou mestrado e doutorado em Filosofia, ambos na Pontificia Università San Tommaso D’aquino. Completou os dois em apenas quatro anos. Aos 24, já era doutor. Hoje, só para dar uma ideia, o tempo médio apenas de um doutorado costuma ser de quatro anos.

“Eu sempre fiz no menor tempo possível, primeiro porque não recebia bolsa nenhuma do governo brasileiro. Não recebia dinheiro dos meus pais. Tinha que trabalhar para me manter. O melhor era ficar o mínimo possível”, conta.

Na Filosofia, tinha duas grandes áreas de interesse: a filosofia da linguagem, que incluía a teoria dos signos, interpretação e passando pela filosofia da cultura; e a teoria democrática, que tinha temas relacionados à filosofia política e à ética.

Facom

Ao fim do doutorado, voltou ao Brasil. Não conhecia ninguém, não tinha mais nenhuma relação aqui. Não recebia convites de universidades. “Alguns departamentos fechavam claramente as portas porque as pessoas queriam aproveitar a chamada prata da casa”.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Foi assim por seis meses. Mesmo antes de chegar ao país, vinha enviando cartas a departamentos de Filosofia em todo o Brasil, se apresentando e dizendo que estava disponível para oportunidades de trabalho. As respostas vinham de instituições privadas – em geral, católicas – e de algumas públicas.

“Podemos solicitar uma bolsa de recém-doutor no CNPq”, diziam. Outra resposta comum era de que tinham concurso em vista. Quando os editais fossem lançados, ele poderia participar. Na época, não tinha um lugar que preferisse. Queria estar mais perto da família e, naquele contexto, só de estar no Brasil, era um avanço.

Até então, o que lhe parecera mais atraente fora uma proposta da Universidade Federal de Santa Maria, que tinha um mestrado de Filosofia. Era um dos locais que sugeria pedir uma bolsa de recém-doutor até que tivesse concurso. Wilson preparou o projeto.

Na véspera do último dia do prazo de envio, encontrou um amigo de Camacã. O amigo ficara sabendo que a Faculdade de Comunicação da Ufba pretendia abrir um mestrado em Comunicação e Cultura no ano seguinte.

O rapaz falou de Wilson ao já professor Albino Rubim, que também fez parte da lista dos pesquisadores 1A da Ufba – hoje, ele é pesquisador sênior. “Chegou um cara aí com doutorado, que trabalha com filosofia da cultura. Ele está mandando projeto para Santa Maria”, anunciou. “Pede para ele vir aqui antes”, respondeu Rubim.

Na mesma noite, Wilson pegou um ônibus de Jequié, no Centro-Sul baiano, com o projeto debaixo do braço. Conheceu Albino Rubim, que lhe mostrou a grade de disciplinas. Na lista, algumas bem próximas do campo que trabalhava: semiótica, teoria da interpretação, estética.

“Você não quer mudar esse seu projeto para cá?”, propôs Rubim. Foi quando pensou na família, nos pais. Era filho “de pai velho”, como frisou em pelo menos dois momentos da entrevista ao CORREIO. “Usei Liquid Paper (a marca de corretivos) para apagar Santa Maria e escrever Federal da Bahia em cima. Usei exatamente o mesmo projeto para a Ufba”, conta o professor Wilson.

Assim, chegou à Facom em 1989 – o mestrado em Comunicação e Cultura, o primeiro dos cursos do chamado PósCom, acabou tendo início apenas em 1990.

Na internet

Filosofia, antropologia, filologia clássica, teologia, pós-doutorado em cima. O professor Wilson tinha muitos interesses. Diz que seu percurso nas ciências humanas foi um tanto ‘vagabundo’.

“A vida é muito curta para tantos interesses que a gente tem. Se tivesse mais vida, provavelmente teria estudado economia, direito, coisas assim”, reflete.

Mas, na Facom, se firmou em duas linhas: comunicação e política, com estudos sobre democracia, e interpretação. Por anos, foi professor de semiótica na graduação. Por aí, incluía cinema, estética. Ao se aproximar dos 50 anos, viu que tinha que se concentrar em uma só área, até para trabalhar de forma mais institucional.

Os ambientes digitais eram seu interesse desde a década de 1990, assim como de outros professores da Facom. De 2005 em diante, boa parte da energia já estava concentrada na comunicação política em ambiente digital.

(Foto: Acervo pessoal)

“Quando vieram os movimentos sociais em 2011, a internet de revolução, a Primavera Árabe, a gente já estava trabalhando. Já tinha muitas teses sobre participação em meios digitais, depois fomos para transparência, dados abertos. Fomos acompanhando as evoluções”.

Investiu na criação do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (Ceadd), que foi também a base para a criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Democracia Digital. O instituto foi aprovado em 2014, mas os recursos só começaram a ser liberados em 2016.

Ao todo, são 120 pesquisadores, contando a partir de doutorandos. Ou seja, se a conta incluísse mestrandos, o número seria ainda maior. Só de professores pesquisadores, entre brasileiros e estrangeiros, são quase 70. Dos 120, 15, em média, são da Ufba.

“A gente tem que fazer a gestão disso, fazer relatório, manter essa estrutura. Se quebra o ar-condicionado, (Abraham) Weintraub (ministro da Educação na época da entrevista) não manda consertar. A máquina fica obsoleta. Precisamos ter autossuficiência, porque são seis anos de INCT”.

Pesquisador 1A

A bolsa em produtividade de pesquisa veio depois que se tornou professor efetivo da Facom, em 1992. Ele não sabe, ao certo, quando se tornou 1A – possivelmente, depois que se tornou professor titular. Não era um objetivo, diz, até por ser algo muito limitado.

“Tanto que eu acho que a Facom sempre foi muito superestimada nesse conjunto. Se você pegar dentro da área de comunicação, de fato, a gente tem um pouco de hegemonia”, analisa.

Dos 14 pesquisadores 1A com bolsas em Comunicação, em todo o Brasil, dois são da Facom. Até 29 de fevereiro de 2020, eram três, com o professor Marcos Palacios, que não solicitou a renovação da bolsa de produtividade após essa data.

A Ufba ainda tinha outro pesquisador 1A com bolsa de Comunicação até fevereiro – o professor Albino Rubim, que, hoje, é ligado ao Instituto de Artes, Humanidades e Ciências (Ihac), mas que, por muito tempo, foi lotado na Facom. Desde o início de março de 2020, ele se tornou pesquisador sênior.

Ao longo da carreira, Wilson influenciou outros pesquisadores. Criou uma rede que, atualmente, está espalhada por universidades em Minas Gerais, Paraná e Alagoas. Na família, a filha está terminando Direito e o filho cursa Educação Física. É casado com a também professora titular da Facom Maria Carmem Jacob, uma das principais pesquisadoras de televisão e telenovelas do Brasil.

Como alguns de seus colegas, uma de suas maiores dificuldades é tirar férias. Mesmo apaixonado por cozinhar, jardinagem e tênis – chega a passar quatro horas por dia na quadra, nos finais de semana – costuma escutar, em casa, que não tira um tempo livre.

Passou a ter um costume, que transferiu para os orientandos, de trabalhar junto. Outro dia, numa manhã de domingo, quando não há aulas na Ufba, precisou voltar ao INCT. Viajaria para uma palestra em Aracaju (SE) e tinha que buscar o tablet esquecido.

“Tomei um susto quando vi que tinha três (pesquisadores) trabalhando aqui. O trabalho junto, compartilhado, é muito mais rentável. Mesmo quando a Facom está fechada”. Esse hábito, porém, teve que ser interrompido na quarentena.

Formação acadêmica, segundo o Lattes:

  • 1986 – 1988
    Doutorado em Filosofia – Pontificia Università San Tommaso D’aquino, P.U.S.T, Itália.
  • 1984 – 1986
    Mestrado em Filosofia – Pontificia Università San Tommaso D’aquino, P.U.S.T, Itália.
  • 1981 – 1985
    Graduação em Teologia – Pontificia Universitá Gregoriana, P.U.G., Itália.
  • 1981 – 1984
    Graduação em Filosofia – Pontificia Università San Tommaso D’aquino, P.U.S.T, Itália.

Produtividade em números

1
orientação de doutorado em andamento
31
orientações de mestrado concluídas
16
orientações de doutorado concluídas
9
supervisões de pós-doutorado concluídas
27
orientações de Trabalho de Conclusão de Curso concluídas
16
trabalhos completos publicados em anais de congressos
7
orientações de iniciação científica concluídas
25
participações em bancas de mestrado
15
participações em bancas de doutorado
9
participações em bancas de qualificação de doutorado
1
participação em banca de qualificação de mestrado
9
participações em bancas Trabalhos de Conclusão de Curso de graduação
4
participações em bancas de professor titular
34
artigos completos publicados em periódicos
36
capítulos de livros publicados
58
apresentações de trabalho
11
livros publicados/organizados ou edições

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