“Apesar disso tudo, ele (filho) vai ser Bahia. Tem que ser Bahia. Tem hora que eu gosto, mas tem hora que eu desgosto, porque nenhum dirigente fez nada. É mágoa mesmo. Mas eu penso em levar meu filho para a Fonte Nova algum dia”.
Jader Landerson, sobrevivente da tragédia da Fonte Nova
Por Fernanda Varela e Gabriel Rodrigues
'Virei O sobrevivente'
Jader Landerson sorria e comemorava com os amigos de infância na Fonte Nova quando, do nada, tudo se apagou. Após despencar de uma altura de cerca de 15 metros, quando parte do cimento da arquibancada cedeu, ele entrou em coma. Kiko, como é conhecido pelos amigos, é um dos sobreviventes da tragédia que aconteceu no dia 25 de novembro de 2007 e deixou sete mortos. Na época, ele tinha 17 anos. As marcas daquele dia estão nas lembranças e no corpo. Na coluna, Jader sofreu lesões nas vértebras L1, L2 e T9, que comprometeram os movimentos dos membros inferiores, e ainda sente dor caso fique sentado ou em pé durante muito tempo. Na perna, carrega uma enorme cicatriz, fruto de um enxerto que precisou fazer após perder parte do tecido da coxa direita. A maior dor que sente, no entanto, ainda não tem cura para a medicina. “Eu perdi meus amigos de infância e isso nada traz de volta. De lá para cá, muita coisa mudou na minha vida também. Eu virei o sobrevivente da Fonte Nova. Sempre que estou em algum lugar alguém lembra: 'olha, esse aqui é o sobrevivente da Fonte Nova'. Há dez anos, onde eu chego a rotina é essa, as pessoas perguntando, como foi, o que eu lembro. Eu não gosto disso, me deixa chateado”, revela Jader.

Jader Landerson, 27 anos, é um dos sobreviventes da tragédia (Foto: Arisson Marinho / CORREIO)
Aos 27 anos, ele resume tudo o que se recorda da maior tragédia do futebol brasileiro. “Só o que eu me lembro é que fui para o estádio curtir com os amigos, e chegou lá aconteceu esse acidente. Eu nem ia muito para o estádio, só fui por causa de um amigo, Joselito, que sempre ia, e me chamou para ir. Fui eu, ele e Jadson. Eu voltei e eles ficaram. Quando estava lá embaixo não lembro de nada. Foi aniversário de Júnior (Joselito) alguns dias antes, a gente comprou o ingresso, depois vendeu, depois comprou, vendeu de novo, no final a gente comprou outra vez e foi para o estádio”, relata, sentado na cadeira da varanda da casa onde mora, em uma rua pacata de Cajazeiras VI. Jadson Celestino Araújo Silva e Joselito Lima Júnior não sobreviveram à queda. O CORREIO tentou entrar em contato com as famílias de Jadson e Joselito, que eram primos, sem sucesso. Jader explica o motivo: os dois eram filhos únicos e, mesmo com o passar dos anos, os familiares não gostam de falar do assunto. Segundo o vizinho, eles viajaram para a Ilha de Itaparica para evitar abordagens sobre o tema.
‘Tive que aprender a andar de novo’
Depois do acidente, a vida de Jader Landerson virou de cabeça para baixo. Ele entrou em coma, passou um tempo sem reconhecer os próprios familiares e perdeu os movimentos das pernas, recuperados cinco anos e muitas sessões de fisioterapia depois. “Eu renasci, com certeza. Foi Deus. Apesar de tudo, eu estou vivo, estou bem. Fiquei 10 dias em coma e, quando acordei, não reconhecia ninguém. Eu fiquei muito tempo sem trabalhar, passei muito tempo deitado, depois na cadeira de roda, tive que aprender a andar de novo. Eu tive muito medo de não voltar a andar, não conseguia nem mexer a perna, nada. Foram cinco anos de luta para ficar em pé e depois voltar a andar sozinho. Um grande tempo perdido”, diz Jader, que ganhou de presente do avô um trailer, onde vende hambúrguer gourmet no bairro. Jader é um milagre. E, em dezembro, vai presenciar outro: o nascimento do seu primeiro filho, Zion. O menino nem veio ao mundo, mas pode ser a cura para a ferida que nunca cicatrizou. “Apesar disso tudo, ele vai ser Bahia. Tem que ser Bahia. Tem hora que eu gosto, mas tem hora que eu desgosto, porque nenhum dirigente fez nada. É mágoa mesmo. Mas eu penso em levar meu filho para a Fonte Nova algum dia”, disse, com um sorriso no rosto - o único que ele conseguiu dar durante toda a entrevista.

Jader mostra as sequelas da queda da Fonte Nova (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)